Troll Urbano

05 Set, 2006

O Paraíso agora

Arquivado em: Cinema, Isabel Faria — trollurbano @ 11:28 pm

paraiso-agora.jpg

É um filme duma imensa tristeza. Mesmo antes da morte anunciada, quando os dois escolhidos, ainda eram jovens iguais a todos os jovens, de todos os mundos, já na oficina de carros velhos e na cidade de Nablus se respirava a tristeza dos lugares sem futuro e com presente sempre adiado.

É um filme de dúvidas. O próprio realizador falaria dessas dúvidas que ultrapassaram o próprio guião. Para os israelitas, um filme em que se humaniza os terroristas. Para os Palestinianos, um filme onde as dúvidas não são bem vindas. Nem bem vistas.

Quando são escolhidos para uma operação suicida numa rua de Telavive, aqueles dois jovens iniciam, sobretudo, uma viagem pelo caminho das não certezas.

Ao drama da morte anunciada, junta-se a quase comédia de que é de morte de homens que se trata. Trapalhadas, máquinas de filmar que não funcionam quando um deles faz o discurso de despedida, atrasos, desencontros, procuras. Coisas de gente, portanto. Coisas de gente, igual a nós.

A presença da filha dum herói da causa pelestiniana, que chega de fora cheia de dúvidas se aquele é o caminho, a postura fria e “profissional” dos controleiros (poderia ser de outra forma? é possível criar laços e mandar morrer?), a cidade destruída, a paixão que parece querer sobrepôr-se à morte, os recuos, enchem o filme e fazem os últimos dias dos dois jovens palestinianos. Quando pela segunda vez partem, Said sente que é ele que tem que cumprir a sua missão. Quando chama o carro que os traria de volta à vida, e nele mete o amigo e fecha a porta ficando sozinho na cidade e na missão, é, para mim, a certeza que o que leva aqueles jovens a morrer não é a fé. É a humilhação. Saíd decide morrer para redimir o passado colaboracionista de seu pai ( a amiga regressada do estrangeiro, ficaria chocada quando na loja de videos lhe dizem que vendem mais os videos dos fuzilamentos dos “colaboracionistas” que os das despedidas dos “mártires”) e por não suportar a memória do campo de refugiados onde viveu…não deixa o seu amigo morrer porque sabe que o futuro pode (quem sabe se deve?) não passar pela redenção do passado. Nem, apenas, pela sua recusa.

A última cena é de uma sobriedade quase chocante. Depois de ter recuado num autocarro onde uma criança israelita brincava com o motorista, Said tem a sua missão naquele autocarro. Se fosse por fé, tanto faria morrer num ou noutro lugar…o que Saíd ali tem é imagem personalizada da humilhação do seu povo. Ela dá-lhe a força para ir até ao fim. Um fim que não se vê. Não se ouve. Apenas se sente, Um fim em forma de dois olhos, diria, sem nenhum olhar. Nem de desespero. Nem de vida. Nem de medo. Nem de convicção. Nem de busca de que paraíso fôr. Agora ou não. Nem de raiva. Nem de dor.Nem de morte. Um fim em forma de olhos sem nenhum olhar (ou com todos eles?). De cuja força apenas somos libertos quando, enfim, começa a passar a ficha técnica.

3 Comentários »

  1. Será que vou ser a primeira a comentar um post a sério, aqui na casa nova?! Uau!
    Eu acho que vocês tiveram uma paciência evangélica, mais do que aquilo era já masoquismo!!! Mas a verdade é que mesmo os outros blogs nåo andam bem. Ontem para um post entrar andei aqui numas ginásticas complicadas – e isto numa casa e num pc que nåo é meu e a escrever num teclado desconhecido…!
    Já me tinham aconselhado esse filme e quero ir vê-lo assim que voltar. E a tua visäo ainda mo torna mais interessante. É um tema de enorme delicadeza e que deve ser tratado de um modo muito inteligente para nåo ser demagógico para uma banda ou outra.
    De qualquer modo, voltando ao princïpio, parabéns pela decisäo, que já tardava.
    BOAS EBTRADAS!!!

    Comentário por Emiéle — 06 Set, 2006 @ 7:42 am

  2. bem vinda ao Mundo, amiga…que tal a Dinamarca???
    Pois tinhamos ficado sem paciência para conyinuar a bater com a cabeça na porta…

    Quanto ao filme, não deixes mesmo de ver assim que voltares. os filmes do King não costumam ficar muito tempo em cartaz (infelizmente, acrescentaria…).

    Comentário por isabel faria — 06 Set, 2006 @ 3:51 pm

  3. Bom filme que vai correr proxima terça em Olhao atraves do cine clube de Olhao…vale a pena meditar…afinal o que é a vida de cada um de nós…seremos no fundo todos irmãos?

    Comentário por melo — 08 Jul, 2008 @ 7:22 pm


Feed RSS para comentários a este post. TrackBack URI

Publicar um comentário

Blog em WordPress.com.