Tenho um amigo, um grande amigo, que um dia perdeu as duas pernas, num acidente de carro. Desde aí vive (e viver é viver, mesmo) com a ajuda de uma cadeira de rodas.
Lembro-me dos primeiros tempos e das primeiras angústias. Da sensação de vazio que transmitia.Das lágrimas. De o ouvir dizer que não valia a pena continuar. Que não vale a pena viver se não se pode correr, jogar á bola ou, simplesmente, descansar os pés depois de uma jornada longa e dura.
O tempo passou. O meu amigo faz hoje tudo o que faria se um acidente de carro, ali, na ida para a Figueira não lhe tivesse levado as pernas. Encontrou um amor, casou, tem um filho lindo…só não joga à bola nem corre. Nem descansa os pés.
Quando falamos nisso, diz que é feliz. Que se habituou a viver sem aquela parte de si. Se habituou e é feliz. Mas que lhe sente a falta. Todos os dias lhe sente a falta. Tantos anos depois, diz que tem umas saudades enormes do que perdeu. O que me valeu na altura, diz, foi encontrar, cada dia, uma nova coisa que era possível fazer sem elas. Mas, dias houve, noites, sobretudo, em que pensei que sem partes de nós, não vale a pena viver, acrescenta.
Esta manhã, acordei a pensar no meu amigo. A tentar encontrar nas palavras dele a força para continuar. Diferente não significa necessariamente pior, ou nada. Mas, é preciso aprender a fazer, cada dia uma coisa nova, sem aquilo que se perdeu…
Neste momento o Troll é um desafio. O meu amigo é um mestre a jogar xadrez. Esta manhã ao chegar aqui, tive uma vontade enorme de desistir. Ou, pelo menos, dizer que precisava de um tempo. O meu amigo diz que só conseguiu sobreviver porque se agarrou ás memórias das corridas que fez e dos jogos de futebol que jogou…não quero desistir. Mesmo sem uma parte, não quero desistir.
Se conseguir aguentar o Troll, se conseguir voltar a correr, sei que “as pernas” não contam (contavam) assim tanto. Se não conseguir…logo se verá.
Há outros motivos para tentar continuar aqui. O Troll tem aqui muito de mim. Corridas e jogos de bola. As melhores dos últimos tempos. Neste momento, em que a memória teima em ser selectiva, apesar do que issso dói, as melhores, tout court. E o meu amigo diz que a memória é importante…para nos habituarmos a viver com o que perdemos (ou será que ele diz sem o que perdemos?).
Finalmente o Trol é, para mim, e neste momento com as falta de assiduidade dos nossos colegas, uma corrida minha e do Daniel Arruda. Mesmo com a falta que as pernas me fazem, não gostaria de deixar o Daniel a correr sozinho. Nunca faço isso aos meus amigos. Possivelmente vou um bocado coxa e ele vai ter que puxar por mim…mas espero que ele tenha paciência e o faça…
Vou tentar continuar. Voltar ao normal. Mas seguramente vou ter saudades. Daquelas alturas em que as pernas me levavam sempre ao Mar.
